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Primeiro livro publicado

Diário de catarse: O natal dos sonhos


Ainda aos 11 anos eu me sentava à janela. A cidade muito quieta e o bairro morto à meia-noite. Estava sempre muito calor e os pernilongos faziam serenata. Não havia árvore de natal em casa, com enfeites de bola ou pisca-pisca. Ninguém se reunia para cear ou trocar presentes. Ninguém se importava.
Na tevê estava passando Mary Poppins. Em algum outro canal havia filmes antigos ou propagandas tão encantadoras que meus olhos, fatigados pelo mesmismo, sequer piscavam. Celebrações se iniciavam em várias regiões do mundo.
Eu olhava as estrelas por horas e horas. Esperava algum sinal, qualquer coisa. Que fosse um Deus, um E.T, um Papai Noel ou um fantasma. Eu queria alguma coisa. Algo que parecesse vivo e me levasse dali, que me despertasse. Algo que me tirasse do deserto dos dias.

Diário de catarse: Carta aos mortos

Oi, avó.
É triste perceber que não me recordo de seu olhar. Aliás, não sei dizer qual era a cor de seus olhos. Gostaria de poder imaginar como me olhava, se seria mais como um abutre sobre a carniça ou como qualquer um de nós olha para um inseto asqueroso. Algum dia eu terei sido como Gregor Samsa? Ou um pouco menos que algo tão filosófico?

Diário de catarse: Os finais felizes


Os olhos se arregalam. O coração dispara. Vejo as paredes, o calendário, o sol brilhando pela fresta da janela. Ah, é domingo... E eu não tenho mais com que me preocupar. Nem correria, nem medo, e se eu não chegar lá? Não me questiono mais. Eu cheguei. A formatura passou, estou trabalhando, tudo está em seu lugar.

Diário de catarse: Melindre


“Meu rosto vivia marcado de pequenos machucados. As espinhas me irritavam.”

Na noite de domingo não há alegria. Não há alegria no abrir dos olhos em uma segunda-feira de manhã. Não há alegria, pois a vida não está certa. Entortou, parou, enferrujou.
         De cada amor o que sobrou foi medo. O dedão do pé já está em carne viva de tanto tropeço. Onde há certeza de que estamos fazendo o certo?
         Triste, qualquer palavra áspera me dói. Alegre, qualquer palavra áspera me dói. Um melindrar inteiro. Estou sempre como se vivesse em uma constante corda bamba. O mínimo de desequilíbrio e o tombo é feio, violento, esmagador. Mas me reergo, cambaleio, trato as feridas e subo outra vez. Será que um dia desses saberei fazer isso direito?

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